segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

MAIS UMA DICA DE LEITURA: A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO, DE JOÃO GUIMARÃES ROSA


            

            Sendo hoje o dia do leitor, não poderia deixar de comentar neste site algumas considerações sobre mais um capítulo do livro SAGARANA, do grande escritor mineiro Guimarães Rosa, que estou lendo no momento. Trata-se do segundo conto intitulado “A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO”.  

           O conto tem início falando de “um jumentinho que vem sozinho, puxando o carroção. Patas em marcha matemática, andar consciencioso e macio. Ele chega de sobremão, pára, no lugar justo onde tem que parar, e fecha imediatamente os olhos (...).

            De início, o leitor imagina o conto anterior do livro, que fala sobre o "burrinho pedrês", entretanto, o burrinho deste novo conto não tem a ver com aquele animalzinho, a não ser a lição de que esse animal é profundamente trabalhador. Na verdade é uma paródia do conhecido texto bíblico o filho pródigo. Na parábola bíblica o filho pede a herança ao pai e vai para a cidade grande, onde gasta tudo com festas, mulheres e “amigos”. Quando a grana se acaba o filho cai em si, faz uma reflexão e, arrependido volta à  casa paterna, onde é recebido de braços abertos pelo pai que promove uma grande festa para celebrar a volta do “filho perdido”.

            No conto de Guimarães, o que mais chama a atenção é o humor contido em toda narrativa, tendo como personagem principal “o marido pródigo”, que tem o nome de Lalino Salãthiel, popularmente conhecido como Laio, um sujeito malandro, simpático, mulato, contador de histórias, falante e espertalhão. Outra característica desse personagem é que, diferentemente do jumentinho do início do conto, ele é avesso ao trabalho. É daqueles tipos que se possível “dar até nó em pingo d”água” para se safar de qualquer situação. Marido de Maria Rita (Ritinha), morena bela e sensual. Depois de seis meses de casado ele resolve ir embora daquela pequena cidade, partindo para o Rio de Janeiro.

            Sabendo que Ramiro, um espanhol  conhecido seu, tem simpatia por Ritinha e que é “bom de dinheiro”, o procura para pedir emprestado dois mil contos de réis para o auxiliar na viagem, avisando-lhe que está indo embora e abandonando a casa e mulher, mas, pedindo que não contasse a ninguém aquela empreitada.  Na verdade o povo da cidade comenta que: "Ele vendeu a mulher".

            Ramiro, mesmo dispondo daquela quantia, se nega a emprestá-la, no entanto oferece a metade, que é aceita por Laio, que logo em seguida viaja para o Rio de Janeiro, cidade que nunca havia colocado os pés, mas dizia a todos que conhecia.

            Depois de alguns meses no Rio de Janeiro, vivendo de folgas e festas, Lalino, resolve retornar para sua terra natal. O problema é que quando ele chega na cidade, Ritinha, sua mulher está vivendo na mesma casa, com o seu credor – o Ramiro (Espanhol). Espantado com a visita, em breve conversa, este decide perdoar a dívida, continuando a viver com Ritinha, enquanto Lalino deixa a moradia levando consigo apenas uns poucos pertences e um velho violão. Depois ele encontra outra saída para continuar suas malandragens. Como é tempo de política, resolve ingressar nessa seara como cabo eleitoral do chefe político Major Anacleto (homem de princípios austeros, intolerante e difícil de se deixar enganar). Este, incentivado por seu irmão Laudônio, convida Lalino para trabalhar nas eleições. Acontece que era para comparecer no dia seguinte e o malandro só vai aparecer três dias depois, e assim mesmo na parte da tarde, sendo de imediato recusado pelo Major Anacleto, conhecedor do comportamento do Laio.

            Laio engana o Major Anacleto, dizendo que o atraso foi porque estava pesquisando na região sobre a campanha do referido candidato. Termina sendo contratado para trabalhar como “cabo eleitoral”. Acontece que o espanhol Ramiro, vê o Laio conversando com o filho do candidato opositor e leva ao conhecimento do Major Anacleto, que convoca Laio para mais uma conversa. Desta feita, o malandro sai pela tangente informando que na verdade estava puxando conversa com o filho do opositor para colher informações para trazer para o Major. Assim ele convence mais uma vez o chefe político e continua trabalhando para ele.      

            Com saudade de Ritinha, Laio pede ao amigo Oscar para falar com ela para saber se ainda gosta dele. Acontece que o “amigo” ao saber que ela de fato ama o Laio, inventa que ele vive fazendo serestas e farras com outras mulheres e que não a merece. De quebra, ele ainda tenta dar um beijo em Ritinha que se recusa a tal "liberdade". De volta, Oscar informa a Laio que Ritinha não gosta mais dele e que ama o espanhol Ramiro.   

            No final do conto, de tanto usar de malandragens e enganações, Laio consegue permanecer no trabalho, separar Ramiro de Ritinha, com a ajuda do chefe político Major Anacleto, volta a viver com a mulher e ainda tem perdoada a sua dívida.

             Diferentemente da parábola bíblica, neste conto de Guimarães Rosa, o que se destaca é o jeitinho e a malandragem para se dar bem em tudo que se faz.  A ironia é a marca do conto, recheado de passagens engraçadas e  presentes em nosso dia a  dia.

             Li e recomendo a todos que apreciam uma boa leitura dos grandes escritores da literatura brasileira. 

          

sábado, 5 de janeiro de 2019

DICA DE LEITURA - COMENTÁRIOS SOBRE “O BURRINHO PEDRÊS”, CONTO DE GUIMARÃES ROSA


                    Como estou em gozo de férias e gosto muito de ler, aproveitando esse período comecei “degustar o livro SAGARANA, do saudoso escritor mineiro JOÃO GUIMARÃES ROSA. O livro original foi lançado  no ano de 1946, mas o que tenho em mãos foi publicado pela editora carioca Record, no ano de 1984. É a primeira obra de Guimarães, em forma de livro, sendo composta de nove contos. Inicialmente o autor escreveu doze, mas ao publicar resolveu resumir em apenas nove, sendo o primeiro deles intitulado “O BURRINHO PEDRÊS”.  É sobre esse conto, cuja leitura concluí agora a pouco, que quero tecer um breve comentário.


                Como trabalho com Literatura de cordel, há muito tempo, me chamou a atenção, logo no início desta obra, um pequeno poema, em quadra que diz: “Lá em cima daquela serra, passa boi passa boiada, passa gente ruim e boa, passa  minha namorada”. Esse poema telúrico  me fez voltar ao tempo de criança. 


                O Burrinho Pedrês é uma estória boa de leitura de fácil compreensão, que se passa no interior de Minas Gerais, no meio do século XX.  Tem início  como as estórias infantis: "Era uma vez um Burrinho Pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo...". Fala sobre um burro que depois de passar por vários donos e receber muitos  nomes, dentre eles: Capricho, Chico Chato, Rolete, Sete-de-ouro, dentre outros. Está agora bem velhinho, cansado e “se preparando para se aposentar”, na fazenda da Tampa, do conhecido e próspero Major Saulo. De repente, o burrinho recebe a incumbência de fazer o transporte de uma centena de bovinos para um povoado distante. 


                Os vaqueiros da fazenda, cada um escolhe um bom cavalo, sobrando para o personagem Badu, secretário do Major Saulo, apenas o burrinho “sete de ouros” também chamado de Burrinho Pedrês, esquecido na fazenda, sendo escalado para ajudar no transporte do gado. Durante o percurso da estrada, descobre-se que existe uma rixa entre dois empregados da fazenda (vaqueiros) Silvino e Badu, que disputam o namoro de uma moça, cujo nome não é relevado no conto. Em meio às bebedeiras do caminho, descobre-se que o vaqueiro Silvino pretende matar Badu, chegando, inclusive a espantar alguns bois, na tentativa destes atropelarem o seu rival. Como não consegue desta feita, se prepara parar dar cabo a vida do seu “companheiro” pessoalmente, quando a viagem de volta. O ajudante de obras chamado Francolim descobre a trama e leva ao conhecimento do patrão, que nada faz para evitar o crime. 


                No decorrer a viagem, a travessia do “Córrego da fome”, na ida estava em baixa, porém, quando retornam o rio está cheio, por causa das chuvas. Badu está embriagado , motivo pelo qual os outros vaqueiros o abandonam com o burrinho Sete-de-Ouros”. Acontece que, ao atravessarem o rio todos os vaqueiros e cavalos são mortos nas águas, inclusive o Silvino, justamente aquele que pretendia assassinar o Badu, enquanto este é salvo de forma heroica montado à sela do burrinho, conseguindo chegar a outra margem do rio. Outro personagem que conseguiu se salvar foi o vaqueiro Francolim, que mesmo embriagado, conseguiu segurar no rabo do animal e atravessar o ribeirão.  
           

                A descrição do texto é tão realística, apesar de tratar-se de um conto, que o leitor, em alguns momento,  se encontra no meio dos tangerinos, sentindo o cheiro da terra e ouvindo o mugir do gado. 


                O autor usa também alguns neologismos e aforismos para melhor expressar o enredo e a fala dos seus personagens. Destaco abaixo algumas frases que entendi merecer destaques:



Quem é visto é lembrado”;  “Quem vai na frente bebe água limpa”;  “Joá com flor formosa não garante terra boa”;  “Quem tem inimigo não dorme”;  “Galinha tem de muita, mas todo ovo é branco”; “É andando que cachorro acha osso”. 


               O burrinho do conto representa, de forma metafórica a velhice do homem, que depois de trabalhar, produzir e contribuir com o progresso de sua nação (ou dos seus patrões), é esquecido em algum lugar. Muitos o desprezam, apesar de rua riqueza de experiências. No conto, os cavalos e seus vaqueiros jovens, não confiaram no “tato” do burrinho” que não quis entrar de imediato na água, preferiram tomar a frente e morreram afogados, enquanto o burrinho e seus “ocupantes”, um montado e outro segurando em seu rabo, conseguiram chegar a salvo do outro lado do rio: “um burrinho experiente sabe se orientar onde cavalos de boa montaria sucumbem”.    No conto, os animais são tidos como heróis enquanto a sabedoria humana é questionada.


          Este foi apenas o primeiro conto do livro SAGARANA. Recomendo sua leitura. Por enquanto é só.  Vou consumir os demais contos. O próximo será “A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO”. 
             Tenham todos um bom final de semana.  

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

OS NATAIS DA MINHA INFÂNCIA E AS CANOAS DE SEU LEBA E DÊCA



         Mais um ano chega ao seu final. Tempo de saudades e reflexões. Sempre considerei o último trimestre o melhor período do ano. As chuvas de verão, o cheiro de jasmim perfumando as noites da cidade, as festas de conclusão e formaturas, tudo isso me causa um que de alegria misturado com saudade, o que costumo chamar de “melancolia”, que no meu caso de saudosista, principalmente quando atingi a fase dos cinqüenta, não me traz nenhum sentimento negativo, pelo contrário, me transporta ao tempo da mais perfeita pureza, o tempo de criança.

         Mergulho no tempo dos finais de ano, quando as canções natalinas enchiam os nossos ouvidos. A criançada se divertia nos parques infantis dos irmãos Leba e Dêca, sendo que “as ondas” era o melhor de todos. Jovens, crianças e até adultos subiam naquele “carrossel gigante” que subindo e descendo em forma de ondas do mar, quando descia dava aquele arrepio e um friozinho na barriga. A música vinha de um grupo que tocava sanfona, zabumba e triângulo. Haviam alguns malandros que usavam palhas de coqueiro, muito usadas nas barracas armadas pela cidade, e com elas amarravam a reata da calça do desatento e quando este descia do brinquedo via a o “fiapo” da  calça sendo arrancado, mas tudo terminava em boas risadas e nada mais grave acontecia. Quando o sol começava a soltar seus primeiros raios, a bandinha de pífano passeava pela cidade acordando a população para mais um dia de vida e emoções. Tudo isso foi retratado através do quadro que postei acima, pelas mãos do artista e meu amigo Edmilson Soares de Macedo, o popular "Billy Kid", que assim como eu, guarda saudades de um tempo cada vez mais distante.
   
         Outros brinquedos muito usados naquele tempo eram as canoas. Muito coloridas e puxadas com duas barras de ferro, as quais  eram balançadas, subindo e descendo, cada uma com dois meninos (ou meninas). Tinha moleque que forçava tanto o brinquedo que entortava os ferros. Soube de um que subiu tanto que chegou a “emborcar” a canoa, precisando de ajuda para descer.

         Havia também o carrossel, cheio de cavalos coloridos, nos quais a criançada ria a vontade, enquanto seus pais observavam de perto cada ida e volta dos seus filhos, sempre trazendo muita alegria e emoção nas famílias das pequenas cidades.

          Pouco tempo depois começaram a chegar em Buíque os parques mais organizados, com roda gigante, carrinhos bate-bate e outros brinquedos mais modernos, mas as “canoas e as ondas de seu Leba e seu irmão Dêca”, continuavam trazendo alegria para a meninada. Foi um tempo de ouro.


         Também destaco um bom período que marcou a vida de muita gente desta cidade. As festas do comércio. Palanque armado no centro da cidade, muita música natalina, grupos musicais se apresentando nas noites, sorteio de brindes, calouros, o tradicional pastoril. Tudo isso causava emoção e alegria, movimentava o comércio, deixando marcas profundas na população. Era um período que todos esperavam o lançamento do novo disco do rei “Roberto Carlos” e muitos namorados, com toda certeza curtiram bons momentos ouvindo aquelas canções.

         Atualmente, parece que os governantes “se combinaram” para dar um fim a essas festividades, tão saudáveis e que tanto faz bem à população. É do meu conhecimento que apenas a cidade de Alagoinha, aqui pertinho da gente, ainda mantém essa tradição e todo ano organiza essa festa de confraternização.

         Enquanto aqui em Buíque continua praticamente sem comemoração nenhuma, por parte do poder público, me reservo ao direito de curtir meu saudosismo, vivenciando meus tempos de criança, esperando que algum dia, um governante ou mesmo o comércio local tome essa iniciativa promovendo ao menos cinco dias de “confraternização” com a população. Não necessita contratar certas bandas ou artistas que custam vultosas quantias, basta contratar artistas locais e regionais, como faz o governo de Alagoinha há muitos anos a dessa forma poderá ser reativada a festa popular mais saudável do município, ponto de encontro e reencontro de amigos e familiares. 

             Espero que essa festividade seja restaurada o mais rápido possível, para que tanto os que residem em nossa cidade, quanto os familiares e amigos que visitam nossa cidade nesse período festivo, tenham um local onde se encontrar, para um abraço e uma boa conversa e para que os nossos jovens, futuramente tenham as mesmas lembranças que nós, os cinquentões, orgulhosamente temos o privilégio de recordar. 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

TJPE PROMOVE FESTA DE GALA PARA HOMENAGEAR SEUS SERVIDORES


   Na última segunda feira (15.10.2018), no Centro de Convenções, em Olinda-PE, o Tribunal de Justiça de Pernambuco promoveu uma festa de gala para homenagear os seus servidores que este ano  completaram 25 anos ou mais de serviços prestados aquela instituição. Com a entrega das medalhas "Prata da casa" e "Joia da casa", os servidores foram contemplados com uma linda festa, desde a recepção até o encerramento, com muitas apresentações que encheram o coração de alegria e orgulho profissional. Mensagens de autoajuda, música de qualidade, poesia, palestras e muitos abraços foram a tônica do evento.

     Como homenageado, na condição de "Joia da casa",  por mais de 30 anos de serviços prestados, quero de público agradecer a Deus por esse privilégio, a minha família, a todos que participaram da organização do evento, aos amigos que tive o privilégio de reencontrar naquela tarde bonita e em especial todos os colegas de trabalho, passados e presentes, aos quais dedico a medalha recebida, como fiz questão de falar em breves palavras naquele evento.
    O meu abraço também a Monica Alcântara e Amanda Machado, competentes Jornalistas do Tribunal de Justiça, pela cobertura que fizeram ao evento, desde a sua preparação até o final da execução, tudo feito com muita qualidade e profissionalismo.
    
Com minha esposa e Monica Alcântara, jornalista do TJPE

Veja no link abaixo, matéria publicada na página oficial do Tribunal de Justiça de Pernambuco, com maiores informações sobre a festa inclusive a cobertura fotográfica.

Prata e Joia da Casa: homenagens a quem dedicou a vida ao serviço público